Associação Capixaba de Tecnologia
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Inovação conectada: o desafio de fazer centenas de sistemas conversarem

A capixaba SenseUp, associada à Associação Capixaba de Tecnologia (Act!on), aposta em integração, observabilidade e inteligência artificial para transformar ambientes tecnológicos complexos em operações centralizadas, monitoráveis e mais simples de administrar.

Nos tempos de novas tecnologias e sistemas cada vez mais complexos, empresas que investiram durante anos em sistemas de gestão empresarial (ERPs), sistemas de gestão de relacionamento com clientes (CRMs), plataformas industriais, computação em nuvem, inteligência artificial (IA) e softwares especializados enfrentam agora um desafio menos visível: fazer todo esse universo tecnológico conversar.

A transformação digital criou um paradoxo dentro das grandes organizações. Quanto mais tecnologia uma empresa incorpora, maior pode se tornar a dificuldade para administrar o próprio ambiente tecnológico.

Um sistema controla as vendas; outro, a produção; um terceiro, os estoques. Somam-se a eles soluções de recursos humanos, logística, manutenção, atendimento, comércio eletrônico, equipamentos industriais, bancos de dados, aplicações antigas e serviços hospedados em diferentes nuvens.

Separadamente, podem funcionar bem. O problema começa quando precisam trocar informações continuamente, com segurança e sem erros.

É nesse espaço que atua a capixaba SenseUp, que desenvolveu o SenseUp Hub, uma plataforma de integração como serviço, Integration Platform as a Service (iPaaS, na sigla em inglês), para conectar ERPs, CRMs, e-commerces, sistemas legados e outras aplicações em uma estrutura centralizada, auditável e monitorada.

“Existe todo um ciclo antes e depois do desenvolvimento”

Nos últimos anos, a empresa ampliou esse modelo para o conceito de Hub as a Service. Mais do que disponibilizar uma plataforma, a SenseUp passou a atuar como um braço especializado de integração, reunindo tecnologia, metodologia, processos e profissionais para acompanhar todo o ciclo: da identificação da necessidade à implantação, monitoramento, sustentação e evolução.

Percebemos que o desafio não é simplesmente conectar dois sistemas. Existe todo um ciclo antes e depois do desenvolvimento, que envolve entender a necessidade, interagir com fornecedores, definir requisitos, testar, implantar, monitorar e sustentar. Nossa evolução para o Hub as a Service veio justamente dessa experiência”, explica Sergio Teixeira, cofundador e CEO da SenseUp.

Centenas de aplicações, poucas conexões

A dimensão do problema aparece nos números. O MuleSoft Connectivity Benchmark Report 2025, divulgado pela Salesforce, mostrou que uma organização utiliza, em média, 897 aplicações, mas apenas 29% estão integradas. Cerca de 39% do tempo das equipes de TI é empregado na criação de integrações personalizadas.

Isso significa que a inovação pode acabar criando novas ilhas dentro das empresas. Quanto maior o número de aplicações, maior a necessidade de uma arquitetura capaz de permitir que dados circulem entre sistemas diferentes.

A SenseUp utiliza desenvolvimento visual low-code, conectores reutilizáveis, transformação e validação de dados, implantação automatizada e monitoramento. Segundo a empresa, as integrações podem funcionar em tempo real, sob demanda ou por rotinas programadas.

Na prática, a proposta é reduzir a necessidade de construir do zero cada comunicação entre sistemas e centralizar fluxos envolvendo tecnologias utilizadas no ambiente corporativo, como SAP, TOTVS, Salesforce, Senior e Oracle CRM, além de aplicações próprias e sistemas legados.

IA aumenta o desafio da integração

A chegada da inteligência artificial tornou esse cenário ainda mais estratégico. Pesquisa divulgada pela Salesforce em fevereiro de 2026 mostrou que 96% dos líderes de TI consideram que o sucesso dos agentes de IA depende da integração entre os sistemas. Metade dos agentes de IA ainda opera em silos. Entre os obstáculos apontados estão infraestrutura legada ou incompatibilidade entre sistemas, citada por 37%, e integração de aplicações e dados isolados, por 35%.

Uma empresa pode adquirir inteligência artificial de última geração e, ainda assim, encontrar dificuldades para obter resultados se os dados necessários permanecerem presos em sistemas que não se comunicam.

A mesma pesquisa revela que 94% dos líderes de TI acreditam que o avanço dos agentes de IA exigirá arquiteturas mais orientadas a interfaces de programação de aplicações (APIs). Além disso, 96% das organizações pesquisadas enfrentam algum tipo de barreira para utilizar seus dados em aplicações de IA.

O peso dos sistemas antigos

Há outro componente delicado nas grandes organizações: os sistemas legados. Bancos, indústrias, mineradoras, seguradoras, empresas de logística e grandes redes comerciais acumularam tecnologias desenvolvidas em épocas diferentes. Algumas sustentam operações críticas e simplesmente não podem ser desligadas para que toda a estrutura seja reconstruída.

Surge, então, uma necessidade prática: em vez de substituir indiscriminadamente o patrimônio tecnológico existente, construir pontes entre sistemas antigos, aplicações modernas, nuvens, APIs e inteligência artificial.

É nesse ponto que plataformas de integração ganham relevância: a questão deixa de ser apenas quantos sistemas uma empresa possui e passa a ser como eles conseguem trabalhar em conjunto.

Falhas podem custar milhões

Uma integração que deixa de funcionar pode desencadear problemas em diferentes áreas. Uma informação que não chega ao ERP afeta estoques; uma comunicação interrompida entre sistemas industriais pode prejudicar decisões operacionais; uma falha entre e-commerce, pagamento, faturamento e logística pode gerar atraso, retrabalho e insatisfação do cliente.

O Observability Forecast 2024, da New Relic, realizado com mais de 1.700 profissionais de tecnologia de 16 países, mostrou que 62% dos entrevistados afirmaram que interrupções de alto impacto custavam pelo menos US$ 1 milhão por hora. A mediana anual de indisponibilidade provocada por incidentes de grande impacto chegou a 77 horas.

O levantamento também encontrou uma associação expressiva entre observabilidade e desempenho: organizações com observabilidade full-stack registraram 79% menos tempo de indisponibilidade e custos horários medianos com interrupções 48% menores em comparação com aquelas que não haviam alcançado esse nível.

Após esse processo, precisamos saber se ela continua funcionando, se o dado está chegando corretamente e agir rapidamente quando algo sai do esperado. Em ambientes críticos, integração sem visibilidade pode se transformar em um problema operacional”, afirma Sergio Teixeira.

Para atender a essa necessidade, a SenseUp estruturou uma operação de monitoramento e sustentação 24 horas por dia, sete dias por semana (24×7), em português e inglês, na qual profissionais especializados acompanham os ambientes de integração e atuam na identificação e no tratamento de incidentes.

A lógica é migrar de uma TI predominantemente reativa, primeiro ocorre a falha para depois começar a investigação, para um ambiente em que indicadores, dashboards e alertas permitam acompanhar os fluxos e identificar mais rapidamente a origem dos problemas.

É também aí que o Hub as a Service ganha outra dimensão: a integração deixa de ser tratada apenas como um projeto pontual e passa a ser uma capacidade continuamente operada, monitorada e evoluída.

Vale vira vitrine da tecnologia

Um dos principais casos apresentados pela SenseUp é a operação desenvolvida com a Vale para o Centro de Monitoramento de Ativos (CMA). A parceria começou em 2021, diante do desafio de integrar diferentes fornecedores e tecnologias ao ambiente central de monitoramento.

Segundo dados apresentados pela própria SenseUp no Startup Summit 2026, a operação alcançou 159 integrações em funcionamento, envolvendo 23 sistemas, 20 fornecedores e 52 localidades, além de 42 APIs disponibilizadas e disponibilidade próxima de 100%.

A empresa informa ainda que o ciclo médio para entrada de um novo fornecedor, antes estimado em cerca de oito meses, caiu para aproximadamente um mês, enquanto os incidentes relacionados à inconsistência ou ausência de dados foram reduzidos em cerca de 90%.

Os indicadores são resultados divulgados pela própria SenseUp sobre o projeto e representam a atualização dos números anteriormente apresentados pela empresa.

A inteligência artificial também passou a integrar a estratégia de evolução da SenseUp. A empresa teve projeto aprovado no edital Nova Economia Capixaba, da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), para avançar no desenvolvimento do SenseUp IntelliFlow Copilot.

A iniciativa pretende transformar parte da experiência, tecnologia e metodologia acumuladas em projetos de integração em uma solução apoiada por IA. A proposta é utilizar a tecnologia em diferentes etapas do ciclo, inclusive antes do desenvolvimento propriamente dito, apoiando atividades como levantamento e entendimento de requisitos, documentação, análise e identificação de problemas.

A expectativa da SenseUp é utilizar IA para ampliar a agilidade e a capacidade de entrega, preservando requisitos considerados essenciais, como qualidade, segurança e governança.

Internacionalização

A SenseUp também iniciou um movimento de internacionalização e vem estruturando aproximação com o mercado europeu, incluindo o ecossistema industrial da Alemanha. A intenção é apresentar experiências desenvolvidas no Brasil e avaliar possibilidades de cooperação, visitas técnicas e futuras provas de conceito.

Entre os ativos dessa estratégia está justamente a experiência construída no projeto com a Vale, que reúne desafios comuns a grandes operações industriais em diferentes países: múltiplos fornecedores, tecnologias distintas, sistemas legados, ambientes de chão de fábrica e sistemas corporativos que precisam trocar dados com segurança e previsibilidade.

A internacionalização ainda está em fase de estruturação e poderá ganhar novos capítulos à medida que parcerias e projetos avancem.

Durante anos, competitividade tecnológica significou adquirir novas ferramentas. Agora, diante de centenas de aplicações, sistemas legados, diferentes nuvens e inteligência artificial convivendo dentro da mesma organização, a vantagem pode estar menos na quantidade de tecnologias disponíveis e mais na capacidade de fazê-las trabalhar juntas.

A integração, antes escondida nos bastidores da TI, começa a ocupar o centro da estratégia de inovação.

Por Juba Paixão

Fontes:

Salesforce/MuleSoft — 2025 Connectivity Benchmark Report
2025 MuleSoft Connectivity Benchmark — Salesforce.

New Relic — Observability Forecast 2024
2024 Observability Forecast — New Relic

IBM — modernização dos sistemas legadosLegacy Application Modernization — IBM.

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